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Procurações

Procuração particular: como fazer a sua

Por Marcos Henrique · Publicado em · Leitura de 6 min

A procuração particular é o documento em que você autoriza outra pessoa a agir em seu nome, escrito e assinado por você mesmo, sem passar pelo tabelião. Ela resolve muita coisa do dia a dia: buscar um documento, representar você numa reunião de condomínio, cuidar de um aluguel, resolver pendências numa repartição. Mas ela tem limites claros, e o principal é este: quando o ato que o procurador vai praticar exige escritura pública, a procuração também precisa ser pública.

Quem pode dar e quem pode receber uma procuração

Na procuração há duas figuras: o outorgante (quem dá os poderes) e o outorgado, também chamado de procurador (quem recebe).

  • Outorgante: o Código Civil diz que todas as pessoas capazes podem dar procuração por instrumento particular, e que ela vale desde que tenha a assinatura do outorgante (art. 654).
  • Outorgado: precisa ser alguém de confiança. A lei permite até que um maior de 16 anos ainda não emancipado seja procurador (art. 666), mas, na prática, escolha alguém maior de idade e com os documentos em dia, porque bancos e repartições costumam conferir isso.

Se você tem dúvida sobre quem nomear, veja quem pode ser procurador e quais são os limites.

O que a lei exige na procuração particular

O art. 654, §1º, do Código Civil lista o que o instrumento particular deve conter:

  1. o lugar onde foi feito;
  2. a qualificação do outorgante e do outorgado (nome completo, nacionalidade, estado civil, profissão, CPF, RG e endereço);
  3. a data;
  4. o objetivo da outorga, com a designação e a extensão dos poderes conferidos;
  5. a assinatura do outorgante.

O §2º do mesmo artigo permite que o terceiro com quem o procurador vai tratar exija firma reconhecida. Por isso, mesmo não sendo requisito de validade, o reconhecimento de firma é o que faz a procuração ser aceita na maioria dos lugares. Os detalhes estão em procuração particular precisa reconhecer firma?

Quando a procuração particular não serve

A regra que decide tudo está no art. 657 do Código Civil: a procuração segue a forma exigida por lei para o ato que será praticado. Traduzindo:

O que o procurador vai fazerProcuração particular serve?
Assinar escritura de compra, venda, doação ou permuta de imóvel acima de 30 salários mínimosNão. A escritura é pública, então a procuração também precisa ser pública
Assinar contrato particular de aluguel, receber aluguéis, fazer vistoriaSim, com poderes descritos
Representar em assembleia de condomínioSim, em regra (confira a convenção)
Retirar documentos, protocolar pedidos em órgãos públicosSim, mas cada órgão pode ter exigências próprias
Movimentar conta, sacar valores, contratar empréstimoDepende do banco; muitos exigem procuração pública ou formulário próprio
Transferir veículo no DetranVaria por estado; muitos Detrans exigem procuração pública ou firma reconhecida por autenticidade

Para comparar as duas formas com calma, leia procuração pública ou particular: qual você precisa. E, antes de redigir, ligue para quem vai receber a procuração (banco, Detran, INSS, cartório) e pergunte o que eles aceitam. Isso evita perder a viagem.

Como escrever os poderes sem errar

É aqui que a maioria das procurações falha. O art. 661 do Código Civil diz que a procuração em termos gerais só confere poderes de administração. Para alienar (vender, doar), hipotecar, transigir (fazer acordo) ou praticar outros atos que vão além da administração comum, a procuração precisa de poderes especiais e expressos (§1º).

Na prática, isso significa:

  • Diga exatamente o ato: "receber os aluguéis", "assinar o contrato de locação", "requerer a segunda via do documento".
  • Identifique o bem: endereço e matrícula do imóvel, placa e Renavam do veículo, número da conta.
  • Liste os poderes acessórios: assinar, receber, dar quitação, requerer, pagar taxas, retirar documentos.
  • Diga se pode ou não passar adiante: o substabelecimento (transferir os poderes a outra pessoa) deve ser autorizado ou proibido com todas as letras.
  • Coloque prazo, se fizer sentido. Procuração sem prazo vale até ser revogada ou até outra causa de extinção.
PODERES – Pelo presente instrumento, o OUTORGANTE nomeia o OUTORGADO seu procurador, com poderes para representá-lo na administração do imóvel situado na Rua [ENDEREÇO], em [CIDADE/UF], matrícula nº [NÚMERO] do Registro de Imóveis de [COMARCA], podendo assinar contrato de locação residencial, ajustar valor e prazo, receber aluguéis e encargos, dar recibos e quitação, realizar vistorias e assinar os respectivos laudos, vedado o substabelecimento. Esta procuração é válida até [DATA].
PODERES – O OUTORGANTE confere ao OUTORGADO poderes para representá-lo perante a [NOME DO ÓRGÃO], podendo requerer, protocolar, assinar formulários, apresentar e retirar documentos, pagar taxas e tomar ciência de exigências, tudo relativo ao processo/pedido nº [NÚMERO].

Procurações com "amplos, gerais e ilimitados poderes" parecem práticas, mas são justamente as mais recusadas e as mais perigosas. O motivo é simples: termos gerais só alcançam a administração, e quem recebe o documento não sabe o que você realmente autorizou.

Passo a passo para fazer a sua

  1. Confirme se o ato aceita procuração particular. Se envolver escritura pública, vá ao tabelionato de notas.
  2. Pergunte a quem vai receber o documento se há modelo próprio, exigência de firma reconhecida ou prazo máximo de emissão.
  3. Reúna os dados completos de outorgante, outorgado e do bem ou processo envolvido.
  4. Escreva os poderes de forma específica, com prazo e regra sobre substabelecimento.
  5. Imprima, date e assine. Reconheça firma no cartório de notas se o destinatário pedir (o que é o mais comum).
  6. Entregue o original ao procurador e guarde uma cópia.

Validade, revogação e fim da procuração

A procuração termina, entre outras causas, pela revogação, pela renúncia do procurador, pela morte ou interdição de qualquer das partes e pelo fim do prazo (art. 682 do Código Civil). Ou seja: com a morte do outorgante, a procuração deixa de valer, e o procurador não pode mais usá-la para vender ou receber em nome do falecido.

Para revogar, o ideal é fazer isso por escrito e comunicar o procurador e quem poderia receber a procuração (banco, inquilino, imobiliária). Revogação que só você conhece não protege contra quem negociou de boa-fé com o procurador. O passo a passo está em como revogar uma procuração.

Procuração é um cheque em branco limitado pelos poderes que você escreve. Nunca assine uma com poderes que você não leu, e nunca entregue procuração para vender imóvel a quem você não confia plenamente.

Checklist antes de assinar

  • O ato aceita procuração particular (não exige escritura pública)?
  • Local e data preenchidos?
  • Qualificação completa das duas partes, sem abreviações?
  • Bem, conta ou processo identificado com números?
  • Poderes específicos, sem expressões vagas?
  • Prazo definido e regra sobre substabelecimento?
  • Firma reconhecida, se o destinatário exigir?

Se tudo estiver certo, o modelo de procuração do FazDoc monta o texto com a qualificação e os poderes, e você ajusta cada palavra antes de imprimir.

Perguntas frequentes

Procuração particular precisa reconhecer firma?

Não é requisito de validade, mas o Código Civil permite que o terceiro exija firma reconhecida. Na prática, bancos, órgãos públicos e cartórios costumam pedir.

Procuração particular serve para vender imóvel?

Não, quando a venda exigir escritura pública, o que acontece na maioria dos imóveis acima de 30 salários mínimos. Nesse caso a procuração também precisa ser pública, feita em tabelionato de notas.

Quanto tempo vale uma procuração particular?

Vale pelo prazo que estiver escrito nela. Sem prazo, vale até ser revogada ou até outra causa de extinção, como a morte do outorgante. Mas muitos órgãos só aceitam procurações emitidas recentemente.

Posso fazer procuração particular de próprio punho?

Pode, desde que contenha local, data, qualificação das partes, poderes e a sua assinatura. Escrita à mão ou digitada, o valor é o mesmo.

A procuração particular perde a validade se o outorgante morrer?

Sim. A morte de qualquer das partes extingue a procuração, e o procurador não pode mais agir em nome do falecido.

Este conteúdo é informativo e geral. Regras de cartório, impostos e prazos podem variar conforme o estado e o município. Em casos específicos ou de valor alto, consulte um advogado ou o cartório da sua cidade.

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